segunda-feira, 17 de junho de 2013

Viajando no tempo com:

Isqueiro

Após muitos testes comparativos, apenas os isqueiros transparentes vendidos em trens apresentaram relevância na manifestação atmosférica. Quem pode me julgar? Perdi apenas a ponta do dedo anular, compensado pelos 4.5 segundos à frente do tempo. Foto comparativa, antes e depois, via email:

pedrosa_maromba@bol.com.br

(Pedrosa Junior - Espírito Santo)


Manteiga de garrafa

Produção nacional. Tal combustível foi comprovadamente útil na criação de estímulos espaciais. A viscosidade tem aproveitamento de 100% com objetos eletrônicos. Esqueçam o pão e a panelada de frango. Comprem para estoque, junto com placas de monitores.

(Gino Bahia - da Lan House JTP, Bahia)

Caneta “Bic” com quatro cores

Artefato para escrita que vem sendo descontinuado pela população jovem, tem todo o potencial mecânico para construções resistentes a viagens temporais. Rosca em Z, grande carga de fluido, cheiro peculiar. Teóricos já debateram a exaustão a fórmula química das pigmentações. Este cilindro potencial sugere olhos atentos em sua fabricação e demanda.

(Caio Ponte Prado - Jundiaí, SP)

Apresuntado

O primo pobre do presunto tradicional é produzido com restritivas em seu conteúdo, dito como sendo de baixa caloria. Sabor saponáceo de aditivo desconhecido (pelo menos para mim). Um dos grandes comestíveis para alterações de tempo e espaço.

(Mafra M. - Apucarana, Paraná) 

Lambaris

São condutores de massa na passagem do tempo. Primo meu caiu no rio onde pescávamos e em poucos minutos desapareceu numa leva de Lambaris. São muito rápidos mesmo. Aguardo noticia do futuro com uma amistosa paciência. No dia de sua viajem, só lamentei ele não poder experimentar uma das muitas piranhas que pescamos.

(Francisco Fradinho - Zona Franca de Manaus)

Maionese

Em temperatura ambiente bastam dois dias para efeitos de distorção temporal. Possíveis futuros alternativos. Maionese pode ser um dos capacitores que não somente possibilitará viagem no tempo, como pode abrir dimensões. Aguardo boas novas em até dez anos.

(Dr. Ino Imamura - São Paulo, SP)

Terapia

Um terapeuta que faz terapia, paga a consulta oferecendo terapia para o terapeuta que o tratou na véspera. Um paradoxo de tempo cria o portal para o futuro do presente alternativo. Mas isto só ocorre ao lado do divã onde a pessoa se deitou. Uma viagem no tempo restrita, apenas para profissionais do setor. Uma pena.

(Dr. Mario Bardo - Araraquara)

*** sic***
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“Talk show”

 
Jorge Gino Garcia

NA NOSSA MENTE



Vinheta moderna:


“ZuuuuuuuuuUUUUUUUUMMMMMM NA NOSSA MENTE”


O contra regra engatinha para frente do auditório e inflama as pessoas com uma salva de palmas:

clap clap clap clap clap

Jorge Gino Garcia descruza as pernas, sorri com todos os dentes e aperta de modo amigável o antebraço do entrevistado.

- Doutor Claus Silveirinha, quer dizer então que todas estas mensagens sobre viagem no tempo, chegam através do Twitter e por e-mail  de colaboradores entusiastas por todo o país? 

- Sim, como bem vimos. Muitas das dicas ainda carregam certo ar de deboche, obviamente inevitável. Por conta disso, separei apenas as que aqui foram reproduzidas, por serem exatamente os meus objetos de estudo mais promissores.

- Poderíamos realizar um experimento agora, no palco?

- Mas é claro!

Doutor Claus retirou do bolso de seu casaco duas raspadinhas de loteria. Entregou uma delas ao apresentador Jorge Gino, junto com uma moeda polida de um centavo.

- Esta, Gino, é uma das manobras com melhor avanço.

- Mas parece tão comum. Como é possível? Uma raspadinha da loteca?

- Exato! É a soma de diversos vetores. Nosso cérebro produz diferentes campos de força magnéticos no desenrolar de nossas emoções. A expectativa de receber uma recompensa ativa a fronte deste fabuloso órgão que emana zero ponto quatro joules em relação a sua densidade e a velocidade com que é produzida esta, digamos, aura.

- Mas qual é a relação, doutor, com a moeda de um centavo, por exemplo?

- Se rasparmos com uma moeda de um centavo, feita de aço inoxidável, em uma velocidade superior a da projeção mental, poderemos, segundo cálculos meus, viajar até vinte anos no tempo.

O apresentador descruza as pernas e firma os olhos na câmera 3.

- Vocês aí de casa. Os vejo em vinte anos.

Riu despojadamente e armou uma pose afetada para raspar a cartela.

- Podemos?

- Claro. É a primeira vez que coloco a teoria na pratica. 

Começaram a raspar freneticamente as raspadinhas. Jorge Gino ostenta um sorriso aberto e olhos arregalados na seqüência: bolinha, bolinha, bolinha.

Doutor Claus é pura concentração diante do resultado: quadrado, quadrado, quadrado.

- Meu Deus! Ganhei cinqüenta mil reais. Doutor? É premiada!

- Eu também, Gino. Ganhei um carro zero.

Jorge Gino se posiciona para a câmera quatro.

- Viajar no tempo? Talvez não desta vez. Uma dose cavalar de sorte? De ambos? Com certeza, meus amigos.

E a platéia explode em alegria. Diversos governantes sobem ao palco. Jornalistas caem no tablado como gafanhotos vorazes. Fotógrafos afundam o dedo no gatilho e milhares de flashs são disparados. Seguranças avançam um cordão de isolamento. Familiares do apresentador choram copiosamente.

- O quê? O quê?

O doutor desmaia na poltrona. O cartaz que as caravanas seguram, no que antes chamavam de estúdio de televisão, é uma visão muito bombástica.


Bem vindos ao ano de 2.031.

Viajantes do tempo.

Heróis!