quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Técnicas esquecidas de escrita


A Palma de Torquato


Em 1889, o barão Alvaro Torquato (Campo Boi Mirim) desenvolveu uma dinâmica para escrever com fluidez durante suas crises de depressão. Diante de uma pilha de folhas e com sua pena abastecida com tinta, Alvaro Torquato levantava-se de súbito e passava a bater palmas em um ritmo marcado. Acompanhava a batida com frases cantadas em idioma inexistente. Este procedimento não linear e de livre exercício imaginativo despertava uma onda de escrita satisfatória diante de seu bloqueio anterior.

As obras de Torquato foram compiladas por José Agrião em 1937.

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O fumo de corda condutor

Costume resgatado por Almeida Moreno no livro Causos Controversos (Editora Cipó).

Os irmãos Botelho Bueno, nos idos de 1950, eram frequentadores assíduos dos saraus na noite paulistana. Em meio a troca cultural, promoviam leituras de mini contos sobre a vida no campo, discorrendo de forma teatral por horas. É sabido que muito do material apresentado não foi escrito previamente e mais da metade ficava por conta do improviso.

O detalhe é que grande parte da narrativa era intervalada e sustentada pelo constante "picotamento" de fumo de corda (adquirido em larga escala no Mercado Central) e posteriormente feito o seu consumo em grandes cachimbos lapidados a mão.

Diz um folhetim de fofocas que os irmãos Botelho Bueno, na falta do fumo de corda, deixavam a qualidade e o ritmo de suas narrativas decair ao ponto de interromperem o exercicio e praguejarem pela falta do fumo como condutor de sua imaginação.

Por conta de incêndios, 90% de suas pequenas obras foram perdidas para todo o sempre.

Primeiro a sopa depois a poesia

O poeta Carlos Conselho respondeu em coluna da Mirian Blat no Jornal Dia do Sul (1992)

MB: Carlos, grande parte da tua obra faz alusão ao universo culinário. De onde surge tanto apetite na poesia?

CC: Como sou insone há mais tempo do que gostaria de lembrar, adotei o costume de me entreter com comida na madrugada. Mesmo não sendo algo saudável, acarretou-me um conforto como nenhum outro calmante o fez. Mas não era o suficiente para aplacar a monotonia. Ai entrou a poesia. Portanto vem a ordem: primeiro a sopa, depois a poesia, dai vem o livro e agora é a entrevista.

MB: Sopa? (risos)

CC: Sobretudo em minha gana, sopa!

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Letras na chuva

Renata Escorpa Nogueira (REN) escreveu, entre 1972 e 1986, 50 romances policiais. Em todas as obras havia uma nota da autora na folha de rosto com os seguintes dizeres:

Escrito nos dias ... do mês ... na chuva.

R.E.N.

Ela conta em sua biografia:

"Ficava em grande espectativa quando amanhecia o céu nublado. As primeiras gotas desciam e lá ia eu, com minha Olivetti, cadeira de plástico e capa de chuva. Claro que tinha todo um aparato de sacolas encapando a máquina e mesmo com cuidado extremo, perdi muitas páginas borradas. A coisa de escrever na chuva deslanchou quando fui acrescentando apetrechos ao redor do meu jardim. Fiz até uma cabaninha para os intervalos. Escrever na chuva foi o meu prazer e minha terapia. Sei que meus detetives não ficaram ensopados para resolver os mais espetaculares casos."

(SARNA, João Andrade. A moça das letras na chuva, São Paulo, 1999, p.32)


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